Segunda-feira

"Fragmentos do meu discurso amoroso"


Queria tanto que me quisesse.
Mas, veja só. Nada feito.
Não vejo meios. Não há mais que possa fazer.
Indiferença essa que nunca acaba.
Sinto até limão dos mais azedos escorrer na garganta por isso.
Arritmia.
Ah, Joel.
Queria poder te dedicar as piores palavras que eu pudesse proclamar.
As piores.

Por quê?

Só me excomunga assim porque sabe que não há palavras suas que me façam desistir.
Mas, admito que assim como vivo de palavras, essa sua secura também me mata um pouco.
Um pouco sempre.

E não. Definitivamente não!
Eu nunca aceitarei que não me olhe.
Que não me diga.
Que não me toque.
Nunca.
Porque não é assim que sinto.
Não é.
É contra os seus e os meus preceitos.
E nem sei se algum de nós tem preceitos.
É pecado.
E nós respeitamos nossos corpos. Não somos pecadores.
Não será dessa forma, Joel. Não será.

E não me venha com esse realismo.
Porque seus dedos são bipolares.
Eles me querem e não me querem.
Chamam por mim e ao mesmo tempo mandam-me embora.
Dizem que sou maravilhosa e que temem por isso.
Depois se revelam realistas e não acreditam em mais nada.
São tão céticos e tão fervorosos esses seus dedos...
Para o inferno tudo isso!
Não me amole por amor de Deus!
Não me amole, Joel!

Eu queria poder dizer as piores palavras.
Mas, eu paro quando escrevo o seu nome.
Porque apenas ele diz tudo o que há de mais pernicioso.
E tudo, absolutamente tudo. E nada mais...
Joel. E só. Joel.

Nathaly Guatura




Quinta-feira

"Poeminha Moderno"

Vós, que me cutucais,
Por amor de tudo, mostrais
Ação de caráter que me prove,
Natureza que vossa cutucação move.
Qual ventura vos traz?
Vosso silêncio me despraz.
Mostra-me, ó criatura.
Sê sensata, sê matura.
Diga-me sem rodeios,
Se quereis por tais meios,
Encontrar-me em enleios.
Ou quiçá, se desejais
Ter de mim um pouco mais...
Se assim, tomas-me de pronto.
Enlaças-me e ponto.
Sem desculpas ou barreiras,
Que encontro-me às beiras
De saciar-me de outros cantos.
Se não cede aos meus encantos,
Encontrar-me-ei noutros aposentos.
Sussurrar os meus alentos,
Meu suor e meus tormentos
Nos ouvidos dos outros.

 Nathaly Guatura

"poeminha ao cavalo"

(Poesia. Amor? Não.
Ando ruim do coração.
Pelo que se sucede. Perdão.
É o que pede a ocasião.)

ó cavalo. sem maiúsculas,
nomes próprios,
virtudes ou preces.
já que, assim, tão
comum me pareces.

nem ao menos uma
revisão que se preste.
norma culta não mereces.
que morras com a proatividade,
tua peste.

é que eu nasci de maneira,
que teu sorriso asqueroso,
só me causa canseira.
e na tua desgraça; gozo.

onde principio com grande
estréia. é o teu fim.
contudo, compreendo a demasiada
inveja que sentes de mim.

dedico-te, então,
ó cavalo, estas linhazinhas.
para que saibas, que teus
coices, me rendem belos poeminhas.

(Só se a Poesia for plena,
É que o martírio vale a pena.)

Nathaly Guatura

Sexta-feira

"Amor de Lá"

Oh, meu amor de lá.
A Poesia que te encanta
É essa paixão,
Que outrora cega e surda,
Emprestava vida a outros amores.
E que agora há de continuar muda...
Por medo, meu amor,
Que se vivendo sem ti,
Já viver não sei sem.
Matar-me-ia a saudade.
A saudade dos eternos beijos
Que jamais te declarei.

Por isso doente já estou.
Que covardia!
Que covardia da vida seria
À enfermidade entregar-me, amor.
Por pura e nua Poesia.

Nathaly Guatura

Quinta-feira

"Sem mais por que"

VI

'Sempre amor'

Isto que te escrevo, meu amor (sempre amor),
Não é carta, bilhete ou reparação.
Tampouco súplica ou adeus.
Nem sequer pode se dar poema.
Que não te dou rimas.
Não te dou sílabas nem ditos poéticos.
Nem mesmo a norma culta "te dou".
Como outrora dei...

Caio em frases quase prosaicas.
Entretanto, nem prosa aqui se dá.
Em verdade, meu amor - suspeito-
Isto que te escrevo
Seja coisa alguma.

Apenas desmaio meus lamentos em papel
Que desfalecem e tornam minha coletânea inexata,
Inenarrável,
Indizível,
Impossível,
Quiçá, insignificante.
In um turbilhão que me adoece.

Alguma coisa é, foi, fora. Ou não sei.
Se te não escrevi antes. Fraqueza.
Agora meu corpo todo em sensação edemática...
Se te escrevo agora... Também fraqueza.
Hipérbato. Porque eu sou assim.
Hipérbole. Porque assim também sou.

Perdoe-me a "baratez" e a "hipertensão".
Perdoe-me também esse escrito.
Enfermidade essa que me cerca e não abandona.
Perdoe-me isto também.
Por desânimo, peço-te também perdão.
Não sei que mais te peço.
Nada. Nada. Apenas te envio.

Que mesmo sem o olhar, sem toque
Ou qualquer sentido.
Tenho-te sentimento daqui, de lá,
Seja de onde for. Aonde for.
Um pouco, um muito, um nada
Que tenho de ti,
Já inteiro é.
Que amo-te tanto
Que não preciso que nada me dês.
Somente o amor que te dispenso...
Não me peça que o mate.
Pois confundiu-me o coração com o conteúdo que tu és.
E, se penso sem ti, não morro.
Que a morte é coisa pouca.

Apenas quero, tento, calo, explico
Te dizer, meu amor (sempre amor)
Que enquanto dure coisa que te sinto,
Nada e ninguém há de dizer que quando
Derramo lágrimas de te amar; minto.

Nathaly Guatura.

Sexta-feira

"Sem mais por que"

V

'Mas, amor calado'

E com tuas palavras
No erro da colocação pronominal
Com o defeito da próclise
Toda tua licença poética...
E com minha rima pobre que virá
É com essas tuas duas palavras que

Faz-me ficar
Faz-me ir
Faz-me chorar
Faz-me rir.

Logo me causas taquicardia
Que nem é preciso
Olhar-te nos olhos quando dizes
Porque meu coração
Enganando-me, ou não.
Declara dogma o dito.

E é por pura covardia
Que desvencilhar-me-ia
Dos teus encantos, meu amor
Que é apenas o teu nome
Mesmo que me deem por louca
Para sempre que me tome
E há de viver e morrer em minha boca.

Nathaly Guatura

Quarta-feira

"Aurora"

É inútil conversar com o Realismo
E se tão irreal é o Romantismo
Por que razão é apenas tudo o que vejo?
É fácil contestar o Amor.

Dor não é Dor
Se não para aquele que a sente
Que a Loucura não é Loucura
Se não houver louco que A exista
E o Amor só é Amor
Porque existo eu.
Ainda, minha Poesia
É, apenas, minha e Poesia
Pois existes Tu inundando-me

Em noites como estas
Que me encharcas em Teu fulgor
Bárbaro e absoluto
E então, eu sei...

Que pelo Amor de tudo
Falar-Te-ei coisa que caracterize
A Morbidez de meu estado.
Que de tanto querer-Te, faço-Te
Meu em sonho e música.

E que se danem os antirromanticos
Que creem na solidez de tudo
E esquecem-se de que
As mais fatais chagas
Encontram-se e espalham-se pelo ar
E que a maior beleza só vive no sentir
Que não se mede e não se solidifica
Se não em sentimento.

E pro inferno todos os realistas
Que, se não sou louco,
Se não me dói loucura e dor
E, se, ainda, ousam dizer que não Te amo
Apregoem-me e dilacerem-me
Pois, definitivamente, não sou humano
E lucidamente, grito a todos:
"Também não sou poeta!"

E se é sem Loucura,
Sem Amor,
E sem Humanidade...
Eu não existo
Diante de minha própria Insanidade
E antes mesmo de assinar esse poema,
Eu sumo.

Nathaly Guatura

"Sem mais por que"

IV

'O Delírio'

Utópico. Esse amor é
Completamente utópico.
Qual utópico, qual nada
Toda essa Poesia
É que é mera Utopia.

De fato, do expressado
Aqui...
Tão improvável forjar.
Quanto impossível sentir.

Nathaly Guatura

Segunda-feira

"Poema Sem Fim IV"

Nasci para apenas dois propósitos
Ser triste e escrever tristeza
Não deves, portanto, questionar ou interpretar o motivo do meu pranto.
Da carne para dentro, sou todo motivo de pena.
E é tão individual o pesar desse trágico fatalismo em que me deito
Que mataria a ti e a todos, pudesses sentir as lacerações e as covas de que sou feito.

Nathaly Guatura

Domingo

"Sem mais por que"

III
'Mesóclise'

Olhar-te-ei nos olhos.
Pegar-te-ei na mão.
Beijar-te-ei nos lábios.
Amar-te-ei, então.

Seguir-te-ei na esperança.
Quiçá conquistar-te...
Aventurar-me-ei com mesóclise.
Com uma, apenas, ênclise.
E, sem negação, nenhuma próclise.

Nathaly Guatura

"Poema Sem Fim III"

Flui de mim como fosse saudação
Atravessa-me o corpo fazendo o que sou
E é de longe, a mais importante em existência
É por isso que...

Analisar-te-ei, minha Poesia.
Para que não me venha nenhum mequetrefe
E biltremente
Encontre em ti gelo, onde há fogo.
Colocação pronominal, onde há amor.
E defeitos, onde há licença poética.

Nathaly Guatura

Segunda-feira

"Sem mais por que"

I
Fugiu de mim a Poesia
Instalou-se ela noutro corpo.
Bem distante daqui
Que em nada mais consigo pensar
Nada mais cabe em mim
De mais nada me alimento
Se não em ti e tu e de ti
Mas, deixarei ainda hoje de amar-te
Que em verdade...
Sou covarde por demasia.
E é de repente
Que nascem os grandes amores do mundo
E é aqui, na minha covardia
Que eles morrem.

II
Seu abraço curou-me dos vícios
Transbordou em mim virtudes
E deixou-me apenas a sequela de querer-te
Querer-te tanto e mais e tanto.

Não devo deixar que morra
Apenas em mim esse desejo
De amar-te hoje e sempre.
Devo sim mata-lo em todos

E grita-lo que todos ouçam
Que tanto amo-te
Que nada mais me vale.
Se não te amar universalmente.

Nathaly Guatura

Sexta-feira

"Poema Sem Fim II"

Vida, só em presente.
Vida. Em mim? Ausente.
Sei que o "uma hora" pode existir.
E só por poder já me ameniza.
Me ameniza dor maior que esta
Esta que já me afronta e me dói
Me dói o corpo e a cabeça.
Que a minha vida é uma espera constante
Espero-lhe hoje. Esperei-lhe ontem.
Esperar-lhe-ei amanhã.
E me incomodo da espera.
Mas, não o suficiente que me possa parar.
Vou deitar, que amanhã eu volto.
Volto para onde sempre estive
Onde pretendo ficar.
Permanecer é loucura.
Loucura mesmo é ir.
E se sou louca cá e lá
Quando é que sou sã?
Vou, não posso ir.
Fico, não posso ficar.
Vida mesmo, só em presente.
Passado é história e futuro é conversa.
Vida mesmo, só em presente.
Ausento o meu corpo do presente e planejo a conversa.
Vida não há nisso.
Sei que me comove a valer toda essa conversa presente.

Dou três passos à frente e vejo o mundo grande.
Mas, a juventude me puxa e daí não vejo mais nada.
Disse Byron: "Vai-se antes de que a própria juventude possa ir."
E como ir?
Logo a juventude irá, mas não eu.
Loucura mesmo é ir.
Permanecer é loucura.
Fico, é claro que fico.
Fico hoje e fico amanhã.
Fico na conversa.
Fico na história.
Fico antes, depois e sempre.
Porque loucura mesmo é ir.
Porque loucura mesmo é rir.
Chorar não é loucura.
Loucura é só conversa que era na história.
Loucura é esse presente, que não é presente coisa alguma.
Loucura é esperar por uma hora.

Vou lá.
Lá venho eu com lá novamente.
Já discuti isso com o eu-lírico.
Lá não é conversa.
Lá tem que parar de ser dito.
Lá tem que ser aqui, já que estou lá.
Vou fazer daqui um lá.
Já que só há história no presente
E que a conversa começa agora.
Futuro eu.
Futuro você.
Futuramos nós dois.
Em toda essa insorte de vida pérfida
Que me dá menos que promete.
E mais que posso carregar.
Mais a mim que a todos.
Porque sou eu e já não sou outro.
Sim, porque sou eu nesse presente.
Sou eu também nessa conversa.
E sou eu, e apenas eu nessa história.
E tanto eu é ênfase de precisão.
Precisão de mais eu outro.
Falta de doce, falta de salgado.
Falta de tudo.
Tão sem paixão, tão sem vontade.
Tão sem presente.
Sem perspectiva de conversa.
E pouco entusiasmo na história.
O incômodo causado pelo amor público
É o indício de pena.
Pena de não fazer parte dessa publicidade.

Esperar-lhe-ei mais um pouco.
Que cada pouco me rende muito.
A espera é válida, comovente e útil.
A espera me dá tempo para planos.
Muitos planos que me viram filmes
Que se fossem sondados seriam pouco assistidos.
E como sempre
Preciso contar-lhes
É que sou muito trágica.
E a minha tragédia dança, pula e corre nos átrios e ventrículos.
Minha tragédia é história.
Ela é um presente do presente.
E é conversa.
Conversa fiada.
Fiada meticulosa e ardilosamente.
Vida, só em presente.
Vida. Em mim?
Em mim há muita vida presente.
Na história não havia.
E na conversa eu não sei.

E lá vamos que aqui não é brincadeira.
Nada mudou de lá para cá.
É porque aqui não é lá...
E nunca há de ser.
Porque não quero que seja.
E sou eu quem conta toda essa história
Dos presentes que já foram conversas.
Já que toda história já foi conversa e presente.
E que todo esse presente será história.
E que a minha conversa também será história.
Meus olhos doem que só vejo coisas doloridas.
Vida, só em presente.
Vida. Em mim?
Ausente aqui que não é lá.

Vou...
Vou continuar por cá.
Tão sem gosto e desgostosa.
Onde no sono encontro mais satisfação.
Pois sei que no sono...
Os sonhos podem me levar para lá.
Lá é vida. Lá é presente.
Lá sou eu.
Volta a mim de lá, que me preciso um pouco.
Deitar-me-ei que me preciso.
É de mim que preciso.

Isso tudo é conversa.
Nos sonhos não há isso.
Por isso é que vou dormir.

Nathaly Guatura

Sábado

"Poema Sem Fim"

Nem tudo o que é massa
É pão.
Nem tudo o que é pão
É francês.
Nem tudo o que é francês
É Paris.
Nem tudo o que é Paris
É Eiffel.
Nem tudo o que é Eiffel
É torre.
Nem tudo o que é torre
É alto.
Nem tudo o que é alto
É grande.
Nem tudo o que é grande
É bom.
Bom não é bom pra poesia.
É bom que os ratos são meus.
E as lesmas são tuas.
Dai-me lesmas!
Dar-te-ei ratos.
E é bom também que
O céu seja azul.
Azul! Azul!
Que o céu seja azul.
Monstro que me faz.
Bem que se, mas...
Rato azul! Rato azul!
Olha o azul que vem, rato.
Voa para o firmamento.
Que o que é seu, te espera.
Que nem tudo que é meu
Vem voando.
Lançando, lançando...
Uma bela canção à tua lesma.
Que é a mesma, é a mesma!
Dadá, dadá.
Que escrevo o manisfesto.
Manifesto principiado.
Que também sou contra isso.
Murofobia.
Eu sujei tuas coisas todas.
Tuas coisas todas.
Com meu cavalo sujo de
Brinquedo. Brinquedo.
Vem pra cá!
Que no teu salário
Não cabe o poema.
E que no teu bolso
O poema não cabe.
Porque o poema é grande.
O poema fede.
E o poema cheira.
E o cheiro é mau.
Vem pra cá!
Que aqui o rato faz a poesia.
E ambos tem entrada triunfal.
Fazem gritos, desespero.
São sujos e é fatal.
É fatal essa vida.
Que vida danada.
É trágico. É trágico.
Eu sou um ser humano trágico.
Que os homens todos são tragédias.
Quem sou eu para ser mais tragédia?
Mais tragédia que os homens?
É que não sou homem.
Sou bicho. Sou rato.
Achei o pedaço do teu rabo
Ao lado do pé. Pé da mesa.
Atrás da mesinha, seu dejeto.
Eu finjo, mas eu sinto.
Amor... Mas, quanto amor.
Nessa história decadente.
Que eu inundo de amor.
Imundo de amor.
Imundo.
E mundo, que me dais?
"Mundeza", responde.
É mudeza que me dais.
Cantemos todos novo cântico.
Que somos todos imundos.
Filho de quem?
Da tua mãe? Do teu pai?
Tu és filho do mundo!
O rato também.
É tudo imundo.
Quantas lesmas a mais?
Sou louco.
Com todo direito.
Direito pouco. Direito pouco
Esquerdo bem mais.
Grita que ele entrou.
Não, não foi o rato que entrou.
Grita que não sabe quem é.
"Quem é?"
Eu voltei!
"E voltou quem?"
Voltei quem eu sou.
"E é? Mas, não tem.
Se não tem não me importa."
Importa.
A porta quero abrir para ver.
Ver o que há.
"Ah! Já? Não abra.
Não abra não, que é cedo."
Cedo para que?
"És jovem. Acalma-te
Abra essa porta depois."
Pois que depois não há.
Vou abrir a porta.
Que estou vivo agora.
Agora é que vou abrir.
Morto já não dá mais.
A morte é velha?
A morte é jovem?
Quem sabe? Quem sabe?
Deixa eu viver.
Que sou só vida.
E é em vida que termina.
Nem em velho, nem em jovem.
Vem!
Vem, se lesma. Vem, se rato.
Apenas vem!
E eu vou também!
Plenitude. É isso...
Isso é plenitude.
Ai, que só!
Se for só plenitude...
É só o que quero.
E é só.
Não me incomode.
Que não te incomodo mais.
Volta à tua vida e a faz.
Eu não preciso ser junto.
É só de vida que preciso.
E mundo... É isso, imundo.
É vida. É vida que me dais.

(Se esse rato soubesse o furdunço que me causaria... Teria, em minha casa, adentrado três vezes mais, com entrada teatral, tapete vermelho e rufar de tambores.)

Nathaly Guatura

Sexta-feira

"Relato da morte do rato"

Ai meu Deus!
Era um rato
Tão pequenino.
Mas, tão pequenino...
Eu só dizia: "Ai meu Deus!"
Sem vírgula mesmo.
Porque eu dizia muito rápido: "Ai meu Deus!"
"Dentro da sua casa?"
Dentro da minha casa.
E eu só dizia: "Ai meu Deus!"
Não, não dizia.
Eu gritava: "Ai meu Deus!"
"Matou o rato?"
Minha tia o esmagou com a CPU
Ele estava entre a CPU e o pé da mesa.
Ela o esmagou.
Eu gritava sem parar: "Ai meu Deus!"
E ela o esmagava.
E o rabo dele tremia.
Ele queria sair.
Eu sei que ele queria sair.
Ele estava apavorado.
Ficava balançando o rabo sem parar tentando se soltar.
E eu gritava: "Ai meu Deus."
Ela arrastou a mesa.
Eu vi sangue.
Eu vi sangue, meu Deus!
E eu abaixei e me pus a gritar: "Ai meu Deus."
Eu ficava olhando pra aquela cena de homicídio...
Gritando: "Ai meu Deus!"
Aí eu coloquei a mão na cabeça e continuei gritando loucamente: "Ai meu Deus!"
Cena dramática foi o que eu vivi aqui.
Estou rouca de tanto gritar "Ai meu Deus!"
No MSN eu dizia: "Ai meu Deus!"
Meus vizinhos devem ter pensado que tinha entrado alguém aqui.
E tinha mesmo!
Meu Deus!
Estou com taquicardia.
Eu peguei o corpinho dele com cinco bolsas plásticas e uma fronha rasgada.
Joguei-o dentro de outra bolsa plástica com algumas embalagens de Vono e uma casca de banana.
E pegando ele eu gritava.
Eu gritava: "Ai meu Deus!"
Subi as escadas gritando "Ai meu Deus!"
Minha mãe me perguntava o que acontecia.
Mas, eu só respondia com "Ai meu Deus!"
E o pior foi quando tentei pega-lo e percebi que o rabo dele estava preso.
Aí foi muito "Ai meu Deus!"
O rabo dele estava preso no pé da mesa.
Eu não conseguia mover a mesa.
Eu tinha desespero.
Tinha muito desespero.
Eu abaixava.
Colocava a mão na cabeça.
Levantava.
E abaixava de novo, agora berrando "Ai meu Deus!"

(Não sei se ele era rato de família ou rato da vida.
Mas, precisava que o mundo soubesse da história desse rato.
Entre tantos "Ai meu Deus!" era a vida de um rato.
É esse o relato da morte do rato.)

Nathaly Guatura.

Quinta-feira

"Lá"

Vou lá.
Que há alegria lá.
Vou lá pra me encontrar,
Na gota d'água duma cachoeira,
Na estátua duma praça,
Ou na estrada de terra,
Que tudo isso há lá.

Vou lá.
Lá que não sei onde.
Lá onde se esconde...
E o que se esconde lá?
Que aqui é sem paixão.
Que o chão daqui não é como o de lá.
Ah, não. Não é não.

Que é seus braços.
Será que estou lá?
Que o seu colo é lá.
Quiçá, que sol há lá.
Que em si, lá irá me confortar.
Que dó! Que dó tenho de não estar lá.

Vou lá pra me encontrar.
Que é doce e brando lá.
E só sobrevivo, por cá.
Que vida mesmo é lá.
E quanta vida há!
E quanta vida há!

Vou lá, que não sei quanto já faz
Que já estou lá.
Que por cá não me encontro mais.
Que me fugi para lá.
Que me fugi para lá.

Vou lá pra me encontrar.
É por isso que eu vou lá.
Que eu preciso é de amar.
Estou indo me ver lá.
Estou indo me ver lá.

Nathaly Guatura

Terça-feira

"Nota"

Sinto que nunca tenha amado verdadeiramente o ser amado.
Pois amo tanto o amor que me parece incogitável deixar de amar o que quer que seja e não senti-lo.
(Quantas desnecessidades descritas com tanta minúcia.
Deus! Será que me perdoarão, os homens, por tanta ignorância poética?
Ou será que ignorantes seriam eles se não pudessem perdoar a deficiência desta aberração?)

Nathaly Guatura.

"Declaração"

Sei que minha morte será breve.
Sinto em meu peito que não conseguirei mais suportar.
A dor me consome por inteiro, e as lágrimas me parecem ácidas ao cair dos olhos.
Sinto que padeço de um mal particular.
Sinto-me mais mortal que todos os mortais.
As palavras que escrevo me soam já como psicografias.
Sinto-me metade vivo por amor, e metade morto por amor.
Respirar nunca foi tão difícil.
E nada que pensei nunca soou tão triste.
Se pudesse transmitir o que sinto nesse momento...
Ah! Com essas palavras... Mataria a todos que lessem.
Mas, ainda não inventaram palavras que possam descrever meus sentimentos.
E o coração com o qual eu amo, os outros não têm.
Tenho ímpetos de abrir meu peito para que todos vejam, e compreendam a síndrome que pela minha hipocondria acredito ser provida.
A dor jamais foi tão dor, e a tristeza... Ela jamais foi tão tristeza.
Abrigo mil loucos varridos e espanados dentro de mim.
O que vejo é uma realidade carcomida que me suga todas as energias e me deflagra os órgãos vitais.
Nada jamais foi como é agora.
Jamais fui como sou agora.
E sinto que logo, simplesmente, já não serei mais.


Nathaly Guatura.

"Com a licença da prosa"

I

Meu amor de poeta é tudo o que tenho. E o ser amado é incrível em minha poesia, pois faz com que ela seja comum (por ser amor) e completamente rara pela singularidade de meu sentimento.
E se ter o ser amado pode significar o fim do amor... Neste caso, abstenho-me de estar com o objeto de minha adoração para que assim, então, o amor se prolongue por toda a eternidade.

II

Não posso lhe dizer que penso em ti o tempo inteiro. Pois quando estou a pensar em ti... Os pensamentos são tão intensos que suponho que o tempo inteiro ultrapasse a medida irreal do tempo real.

III

'Duzentos e dez minutos'

E, então, naquele momento algo colocou em dúvida todas as minhas certezas. E assim, me abismei de meu posto de deusa e me revivi ao meu cargo de reles mortal.
Talvez o tempo que se espera até que digam o que se quer ouvir, anestesie o sentido das palavras quando elas finalmente são ditas.
Minha dúvida era se a razão de minha poesia fora verdadeira, mas o crítico era que diante dos fatos, as palavras por mim escritas já não tinham fundamento.
Será que a espera e a necessidade haviam feito com que se invertessem ou papéis?
Ou o analfabetismo do amor fazia com que meus olhos não pudessem mais ler meus próprios pensamentos?

IV

Observando meu mundo, me distraio de todas essas abstrações sentimentais e me ponho a pensar sobre o céu, a paisagem, as pipas, os meninos e a energia elétrica.
Se estivessem, os meninos, assistindo suas grandes ou pequenas televisões... Os fios da corrente elétrica estariam justificados.
Se estivessem, os meninos, apreciando o céu azul enquanto se refrescam com suas limonadas retiradas de seus congeladores... Os fios da corrente elétrica estariam justificados.
Mas, os meninos estão sem camisa. Pé no asfalto quente do sol, suor pingando da testa e mãos em linha. Mas, os meninos estão com suas pipas.
Neste caso, o que justifica os fios da corrente elétrica?
Neste caso, me ponho intrigada a pensar... O que está no lugar errado? As pipas com seus meninos ou a corrente com seus fios?


Nathaly Guatura.

"Um breve conto de bruxas generalizado"

(Um exagero adverbial e adjetivista)

Era uma vez, no hodierno de nossa sociedade, uma químera chamada Educação.
Outrora, em longínquos tempos, essa fantasia fora realidade. E com essa realidade reinava uma harmonia e uma quase paz semi absolutas. Obviamente o infeliz “quase” e o consterno “semi” em nossa emergente narrativa se devem ao fato de que para existir a história e a humanidade precisa-se, indispensavelmente, de seres humanos. E com a mais intensa diversidade desses homo sapiens sapiens (antes apenas com um único sapiens) existe a mais sortida parafernália de pequeninos grupos desses animaizinhos sórdidos, onde cada uma dessas famílias possuem determinados tipos de modos, valores e costumes.*
A educação que procuro aqui ressaltar não é aquela oferecida em instituições de ensino, nas quais encontramos um meio (um tanto quanto incerto) de fazer com que nossas crianças sejam bem instruídas para posteriores situações na soturna vida, e sim a educação de berço que as gerações anteriores foram aos poucos se esquecendo de passar adiante. A educação que nasce e morre com a carne. É dessa escassa ou até extinta educação de que falo.
A Sra. Educação que retirou-se da sala para dar mais espaço para uma outra Sra.obesa chamada Acomodação.
Os habitantes desse mundo de muito atrás se tratavam mutuamente com outro sentimento - o qual admiro imensamente - que integra sutil e valorosamente nosso atual sonho; o respeito.
Olhávamo-nos a todos nós respeitavelmente. Colocava-se tudo o que pedia-se e tirava-se tudo o que punha-se. E tudo era uma alegria.
Mas, como nem tudo na vida é festa... Mas, como nem tudo na vida são flores... Mas, como na vida o mal se faz sempre o mais plausível...
O mal. O mal profundo que sempre tentara se instalar... Acabara conseguindo de vez, quando um monstro (um monstro horrendo!) se fez hóspede em nossa terra.
O Monstro da pseudo-evolução intelectual havia devorado nossos preceitos e nossa boa convivência. E a partir daí fomos obrigados a engolir as falcatruas de seus capangas comodistas e toda a ignorância de uma geração que escarra nos cumprimentos e se intitula evoluída.
Desde então, os lacaios deste falso desenvolvimento nos impõem a vivência em um mundo onde recebem ordens aqueles que não sabem e apenas são obedecidos os que têm. Onde boa educação é igual ao extenso capital financeiro e a falta dela é andar com um saco nas costas e um chinelo nos pés.

*Acredito, querido leitor, que já tenha ciência absoluta acerca de tal afirmação, entretanto, para que tudo o que digo fique bem claro, preciso partir dos princípios de minhas idéias.

Nathaly Guatura.

Quarta-feira

"Estrela IV"

Não. Não tenho medo de morrer.
Descobri que não tenho medo de morrer.
Pois quando a morte chegar, não terei tempo para temê-la.
Não tenho medo de morrer.
Pois quando morrer, deixarei nada.
Não deixarei herdeiros.
Não deixarei amores.
Deixarei nada.
Suspeito que nem ao menos saudades.
Deixarei apenas palavras.
Palavras que outros lerão.
E palavras que outros tomarão para si.
Minhas palavras que significarão o significado de outros.
Logo, palavras que não serão mais minhas.
Se eu as guardasse, deixaria algo.
Mas como o que é lido a ninguém pertence...
E se deixo palavras que não são minhas...
Deixo nada.
E nada... Nada não pensa. Nada não sente.
Nada não ama. Nada não sofre.
E quando morrer... Serei nada.
Descobri que não tenho morrer...
Descobri que meu único medo é o de estar viva e não viver o suficiente.

Nathaly Guatura

Quinta-feira

"Quando eu era mendigo"

Eu sou feliz.
Digo sinceramente que sou feliz.
Pois tenho por minha casa, a rua.
Para que hei de querer teto?
Não é dele que preciso para andar,
Para dançar e sapatear e me alegrar.
Não. Não preciso dele para nada.
“Mas, e a chuva, meu senhor?”
Ah. Ah, sim! A chuva?
Que venha a chuva!
Que a chuva venha e limpe meus cabelos há tanto por lavar.
Que a chuva venha e limpe minhas roupas encardidas!
Que lave as pulgas dos que me acompanham nos bancos das praças.
Que venha e acorde os que deitam ao meu lado em estado etílico
Pelo simples desfrute de gastar na cachaça o que lhes falta no lar.
Que a chuva venha e com ela me traga a tosse, a dor e a pneumonia que me alimenta a hipocondria aguda.
Isso apenas para que os contribuintes da miséria me tragam o bom e barato placebo, que desfrutarei até a última gota nas noites frias.
Que a chuva venha!
E traga para o meu lado a moça de salto alto que espera embaixo da mesma telha que eu até que lhe apareça um bom moço para apaziguar a chuva com um automóvel.
Que a chuva venha e molhe todo o sentimentalismo barato da minha vivência fácil.
Mas a vida fácil é difícil, minha gente.
No entanto, de todas as preocupações que tens, tenho eu apenas uma de importância vital.
Somente me preocupo se no amanhã terei de morrer de fome e nada a mais.
Mas, como tudo nesse mundo tem vantagem, se morrer eu de fome amanhã, não terei de me preocupar em morrer de fome na semana que virá.
Afinal, se todos meus camaradas com teto tem de morrer apenas uma única vez, seria muita insorte de um indivíduo como eu ter de morrer duas vezes. Não é mesmo?
Ah. Na verdade, bom seria se a vida esperasse que eu varresse o chão antes de deitar-me nele.
Mas, como a vida nada espera. E varrer custa muito, varrer custa tempo...
Deito-me no chão frio e alegro-me enquanto vejo os que morrem ao meu redor, pelo simples saber que da esmola que recebo ainda não tenho renda a declarar, e que no chão sujo em que me deito com meu amigo roedor jamais haverá lençol caro que me custe os olhos do rosto para pagar.

Nathaly Guatura.

Terça-feira

"Uma história de amor"

Era uma vez um semeador. Era uma vez eu. Eu que costumava semear.
Até que em um dia. Um dia de céu azul e calor lastimável. Vi em minha frente um campo seco. Um campo seco de beleza infindável aos meus olhos. E aos meus olhos estava aquele lindo campo seco.
Campo seco que fiz meu.
Tomei-o para mim e chamei-o “meu campo seco”. Cerquei o meu campo para protegê-lo dos maus olhos.
Tratei-o com afinco para que o meu campo seco no porvir tivesse a alegria de dar frutos.
Peguei-o (o meu campo seco) nos braços para alimentá-lo com amor. E o acostumei, e o mimei.
E acarinhava o meu campo seco para que a vida lhe fosse mais doce. E prometia a ele dizendo: “Jamais lhe deixarei, apenas que me queiras longe e não precise mais de mim, meu querido.”
Quando enfim já estava curado, meu campo seco já não era mais seco.
Meu campo seria um campo fértil. E ali eu semearia as minhas mais doces sementes. As melhores sementes para o meu campo outrora seco.
Então, com cuidado para não machucá-lo ou surpreendê-lo, abri pequeninos buracos no meu campo, e lá depositei todas as sementes que guardara especialmente para ele.
Cobri-as com terra. Mas... E a água?
A água era escassa. Usei a pouca que beberia para poder regar o meu lindo campo.
Mas, o campo sedento sugou toda a água que lá eu colocara.
Preocupei-me muito a princípio. Mas logo, de tanta tristeza, surgiu-me a solução.
E eu, semeador e adorador daquele campo que era seco, inundava o regador com lágrimas e regava, e chorava o meu campo seco.
E passei dias e mais noites chorando e zelando do meu seco campo.
Os primeiros indícios no meu campo... Ah! No meu campo! No meu campo os primeiros indícios começaram a brotar.
E a alegria era tanta, que meus olhos secaram depois de tanto tempo.
E olhei com olhos secos para o meu campo e sorri. Sorri de satisfação e orgulho do meu antes seco campo.
Mas após alguns dias veio a dor. Os indícios desfaziam-se e transformavam-se em poeira.
Voltei a chorar em cima do meu campo seco.
E passaram-se noites e mais dias. Continuava semeando o meu adorado campo, e passava as escuras e frias noites em claro a zelar do meu campo. E os dias passava a assisti-lo e rezá-lo para que desse frutos.
Mas não. Nada saia dali.
E um dia, já sem lágrimas que pudesse chorar. Desesperado, implorei a Deus que chorasse por mim e molhasse o meu campo seco.
Afastei-me quando começou a chuva para que não roubasse uma sequer lágrima de água daquele campo seco.
Quando voltei ao meu lar, percebi que havia ele se hidratado novamente.
Depois, há tanto tempo sem dormir, encostei-me aliviado querendo apenas fechar os olhos e logo abri-los novamente, e lá, no meu campo seco reduzi-me e adormeci enquanto anoitecia.
Eis que então, vagarosamente enquanto eu dormia... Furtiva e covardemente entrou em meu campo um colhedor de frutos. E ali, ele, existência pérfida e falaz, como quem não quisesse nada, derrubou uma apenas semente no campo antes meu e seco.
E com um sorriso falso conquistou a minha terra que da noite para o dia para ele encheu-se de brotos.
Quando acordei, já estava eu jogado para fora do campo que costumava ser seco, e costumava ser meu.
E a terra, a terra que amara tanto, e cultivara nela tudo o que pudera. Era aquela terra. Aquela terra que nesse momento zombava de mim. E me açoitava com a indiferença, e se alegrava e dava frutos a outro, outro que não era eu.
Andei muito, e apenas pude avistar ao longe, quando vi as flores púrpuras que floresciam nas minhas terras.
E somente tive forças para gritar de dor e cair de joelhos sob o sol quente, quando coloquei as mãos no meu peito que sangrava, e descobri que naquelas terras traiçoeiras que tanto amara, não havia apenas cultivado minhas sementes. Havia enterrado também o meu coração.
E era uma vez eu, eu que já não mais podia semear. Eu que agora era seco. Eu que caia lentamente sobre um chão escuro e desconhecido, e naquele chão morria de dor, sede e tristeza por saber. Saber que estava longe... Longe do meu querido campo seco.

Nathaly Guatura.

Sexta-feira

"Você é o que você come? II"

O afídeo (bichinho da alface), come a alface.
Você come a alface
Você é um bichinho de alface.
Um cachorro te come.
Você é um cachorro.
Ele come carne de vaca.
Você é uma vaca.
E você é bichinho de alface.
Bichinho de alface é alface.
Então alface é vaca.
Simples.
Então não faz sentido ser vegetariano ou carnívoro.
Você está sempre se comendo, e no mundo inteiro existe apenas um ser.
Porque todo o mundo se come mutuamente.
E se você é o que você come. Você é o mundo.
A frase não diz que ele é o que ele come.
Então é você mesmo. E não o outro.
Assim sendo, mais uma vez comprovo...
Não somos o que comemos.
E se fossemos, o mundo seria um caos.
Você seria um caos, porque é o mundo.
E o caos seria você.
E você comeria caos.
E seria um círculo vicioso.
Portanto. Você não é o que você come.

Nathaly Guatura.

Segunda-feira

"Estrela III"

Minha maior tristeza é saber...
Que apesar de fazer coisas que só em literatura sentido lhe faria.
Triste e felizmente sei que não é o que eu faço, pois mesmo se não o fizesse, seria inevitável o constante pensamento e pesar.
Afirmo, não é nada do que eu faço, acredite, é absurdamente o que eu sou.
Sou eu porque o faço. Se não o fizesse não seria.
E se meus atos correspondem a mim, quero apenas dizer fiel e sinceramente que ser e fazer isso apenas faz sentido em minha consciência.
Pois no que creio, apenas eu creio. Creio no que sou e no que faço.
E faço porque creio. Os outros não.
E assim descubro mais uma vez que não são atos que me incriminam e sim o peso do meu coração.
Por ser maior que eu, nunca me permite ser razão.
E sem razão, posso ser a criatura mais libertina e pura por ser apenas instinto e sentimento.
Mas, sem razão, não sou nada aos olhos alheios.
E é sem razão que aqui e agora tristemente me despeço.

Nathaly Guatura.

Terça-feira

"E assim..."

E assim o conheci.
Com seus olhos e lábios
Palavras, gestos...
Objetos para minha imaginação.

Sinto saudade da sua boca.
Do seu corpo perto ao meu,
Sua voz, suas mãos, seu gosto...
Uma saudade libidinosa e inocente,
Latente no brilho dos meus olhos
E na infinidade de meus anseios.

Saudade do que deveras nunca tive...
Mas o desejar é tão imenso,
Que desejá-lo já é como tê-lo
E não tê-lo é motivo para desejá-lo
Assim não tê-lo é como tê-lo tido.

Sinto-me extasiada por sabê-lo ser assim
Mais uma fonte de inspiração
O desejo apenas pelo desejo
Ou a vontade em lugar da razão.

Nathaly Guatura.

"E agora?"

E agora...
Você poderá não ser mais o mesmo, mas agora...
Simplesmente, continuará a ser agora.



Nathaly Guatura.

Sexta-feira

"Você é o que você come?"

Você é o que você come.
Certamente, você, trabalhador brasileiro, ao pensar sobre isso, sente-se muito mal. Afinal, não dispomos de tempo suficiente para nos alimentar da maneira correta, logo, segunda-feira somos o cachorro quente da lanchonete da estação, terça somos o pastel do Seu Raimundo, quarta somos a quentinha de feijoada dividida no serviço, e por aí vai. Além de que partindo de tal pressuposto, podemos, inclusive, parar de nos preocupar em ingerir afídeos, já que eles não são nada mais, nada menos, que nossa maravilhosa alface (ou, não tardarão em sê-la).
E aqui vão duas ótimas dicas;
Sempre que puder, devore as traças, elas têm muito a lhe ensinar.
Seja sempre gostoso, não seja jiló. E evite ser indigesto antes de dormir com seu parceiro, não seja carne.

Mas, na verdade, em minha sincera opinião... Isso não faz sentido. O que comemos pode dizer muito acerca de nossa identidade, sobre nossos gostos. Mas definitivamente "você não é o que você come".
O fato de gostarmos de comer porcarias, não quer dizer que sejamos porcarias, apenas quer dizer que somos pessoas normais que as vezes cedem às deliciosas gorduras.
Caso contrário, seria correto dizer que existem pessoas completamente verdes e saudáveis durante a semana e ao chegar o maravilhoso sabadão e domingão viram porcarias ambulantes.
Não.
Terminantemente, não faz sentido.
Entenda, querido leitor. Você não é o que você come. Não foi. E nunca será.
Até porque, seria estranho afirmar que praticamos auto-antropofagia, porque se você é o que você come, você está se comendo!
Não se coma, querido leitor! Não seja o que você come!
Essa prática é completamente ultrapassada.
E é exatamente por essas e por outras que certamente, você pensará muito bem quando escutar essa expressão da próxima vez.
Enfim, pensando em tudo isso, chego, inclusive, a diversas outras conclusões. E é realmente correto que comamos coisas que não afetarão nossa saúde, por isso, vou contar uma história...
E aqui vai minha história:
"Era uma vez uma garotinha, e ela começou a frequentar fast-foods aos cinco anos de idade, tanto gostou que cresceu com esse hábito.
E acreditem ou não. Essa garotinha virou uma mulher, e morreu precocemente, aos vinte e seis, vítima de uma bala perdida."
Não. Não é uma história verídica, mas, poderia ser. E a moral dela é que "comendo porcarias ou não, você vai morrer do mesmo jeito."
Talvez você nunca esteja na hora errada e no lugar errado e prolongue sua jornada alguns anos sendo completamente saudável e liberto das guloseimas e churrascarias da vida. E isso seria ótimo, é claro.
Mas, melhor é uma vida curta e bem vivida, que uma longa e mal comida.
Ao pensar na frase "Você é o que você come", podemos concluir que é pensando apenas no físico do índividuo que ela surgiu.
Afinal, pessoas obesas são obesas porque comem coisas que pessoas obesas comem. Pessoas magras são magras porque comem coisas que pessoas magras comem. Pessoas médias são médias porque alternam de coisas que pessoas gordas comem para coisas que pessoas magras comem.
Logo, dizer que somos o que comemos, não é de inteiro errado, se salvarmos o físico.
Entretanto, não somos apenas o exterior, somos o interior também, e inclusive, coisas em evidência no exterior são causadas pelo interior e assim por diante.
Finalmente, é possível constatar inúmeras coisas a partir de ser e comer... Mas eu vou dizer pela última vez e espero que todos os raros entendam.
"Você não é o que você come."
(Em plena Copa do Mundo, acredite. É só nisso que consigo pensar.)

Nathaly Guatura.

Quarta-feira

"Estrela II"

Nossa sensatez e inteligência são tristemente inimigas da nossa humanidade.
Quem dera poder não me dar por elas no presente e no outrora, para que pudesse simplesmente ser humana e nada a mais.

Nathaly Guatura.

Sexta-feira

"Desvio"

São coisas que acontecem poucas vezes na vida.
Coisas que lhe acrescentam e tiram um pouco da sua identidade.
Um momento.
Um indivíduo.
Um olhar.
Uma palavra.
Um sorriso.
E de repente, pensamentos e mais pensamentos.
A irracionalidade.
Você não o conhece.
Mal sabe quem é.
Você não é assim. Tem os pés no chão. É racional. Inteligente.
A relutância.
A revolta.
O tédio.
O início de uma breve loucura.
E é tudo uma questão de tempo.
Não é necessário muito para isso. Na verdade, não é necessário nada para isso.
Apenas uma queda. Ou, na realidade, um tombo.
E muitas vezes eu pensei que isso nunca mais aconteceria.
Era tão improvável.
Mas a impossibilidade não existe.
Talvez exista. Mas não comigo.
Afinal, os pensamentos são meus.
Talvez seja uma breve ilusão.
Ou não.
Talvez seja mesmo isso...
Meu Deus!
O que há comigo?
Quando isso aconteceu?
Como permiti?
Não quero!
É apenas um distúrbio. Um desvio de conduta. Identidade.
Ou carregarei isso para o resto da vida?
Uma flor da mocidade ou da velhice.
E não me reluz a conclusão.
E esse sentimento excessivo que me inunda?
O que é?
Talvez seja apenas coisa de poeta.
Ser imundo. Esdrúxulo.
Por que isso me invade?
Que tristeza. Felicidade.
Que frio. E que calor.
De repente, não sei mais o que dizer.
Ou apenas não haja mais o que dizer.
E quando tudo voltou e me voltei a mim.
Foi aí...
Nesse exato momento.
Tudo parecia tão claro. E então...
Compreendi.
Eu estava apaixonada.


Nathaly Guatura.

"Incerto"

Ontem, pela manhã, escrevo.
Já tarde termino.
De noite descanso.

Hoje, pela manhã, publico.
Pela tarde, todos lêem.
De noite, sou reconhecida.

E é insuportável a dor de saber.
Mas, amanhã, pela manhã.
Só a Ele pertence.

Nathaly Guatura.

"Acromania"

É simples e voraz essa algofilia a que sirvo.
Veemente será a lucidez que ludibrio.
Aritmeticamente calculada como a água de um borriço.
Serei eternamente relembrada pela loucura. E só por isso.

Versos e mais versos metricamente ridículos.
E quem liga para a métrica?
É puro elitismo burocrático da resistência.
Deveras são caprichos e ninguém nota sua ausência.

Nas virtudes do ermo de minha companhia.
Três mais três são apenas dois três. Bradifasia.
A falta de senso em minhas palavras é anomalia.
É descaso das dialéticas amiúdes presentes na minha guia.

Existem momentos em que sou tomada pela demência.
Ultimamente são constantes. Mas é tudo aparência.

Nathaly Guatura.

Quinta-feira

"Estrela"

Alguns sempre acreditaram em minha dita inteligência. Outros, porém, nunca acreditaram em minha capacidade de pensamento, ou em meus conhecimentos sobre as coisas da vida.
Alguns sempre me disseram saber bastante. Outros, porém, sempre acharam que eu sabia muito; sobre o que não precisava e nem deveria saber.
Não que eu não fosse sempre a mesma. Pelo contrário; Sempre fui a mesma, porém, vista por inúmeros olhos.
Alguns olhos acreditavam, fielmente, na futura realização de todas as minhas ambições. Alguns olhos não acreditavam em nada. E, seriam esses tais olhos céticos, que no futuro, se juntariam com minha precoce descrença em certas coisas, e fariam de mim, esta, também precoce, decadente estrela; que por horas – como esta-, se encontraria nesse pleno, e ignóbil, distúrbio literário.

Nathaly Guatura.

Sexta-feira

"S d I ( M m P)"

E a o L
E a o H
A t o J
H a o L.

H n m a
A t m a
Q s t a?
E v, q a?

T e a i
Q i a m
F a m e.

E c s i
E r t a
E n e n.


Nathaly Guatura.

"Versos Livres"

Juro que não me apaixonar por ti tentei
Mas, nesta cruel madrugada
Quando, finalmente, paro de em ti pensar
Ouço na maldita rádio bandolins tocar
Por que te fizeste para mim
Desta maneira, assim
Com Chicos e Oswaldos
E poesia e violão
E versos cifras partituras, és canção
Como pretendes que não me apaixone
Com francês, Vladimir e beleza!
Só podes ser minha criação. Perdoe-me a natureza!
Tornou-se inevitável, a paixão
Quando, apaixonados, juramos não nos apaixonar
Agora, desejo-te pela carne, mente e coração.
Com amizade, ternura, admiração.
Com anseio, loucura!
E enfim, cada centímetro de leviandade.
Sou sincera, digo-te somente e verdade.
Querido, o coração não é difícil de se segurar.
O coração simplesmente não se segura.

Nathaly Guatura

Terça-feira

"Declaro"

Em meio a esta submissão e gratidão descabida que tenho por todos; limito-me a perda total de meus valores, e passo a esquecer-me de quem realmente sou.
Meu caráter morre lentamente, dando lugar ao caráter alheio que desaba e toma formas sobre mim. Um ar de consternação sobe-me do peito e intala-me na boca, acelerando o bombeamento do sangue por meus átrios e ventrículos, entregando-me à insuportável certeza de que minha luta resultou na derrota maçante sobre coisa alguma.
E, só quando escrevo é que sinto-me livre, livre para dizer o que bem entendo dessa vida, sobre linhas mal traçadas e palavras mal colocadas.
Sinto-me livre para dizer qualquer coisa, qualquer coisa sobre coisa alguma, qualquer alguma coisa que diga nada.
E quando escrevo é que posso dizer que poderia odiar cada centímetro da vida, mas nunca optar por não viver e deixar de conhecer os bons milímetros que perdi.

Nathaly Guatura

Quinta-feira

"Soneto à Angústia"

Quem dera sentir, ainda, em meu peito
Toda a angústia, que outrora senti
Sem dar-me por tua nefasta razão; a vivi
Deitada e descansada ao meu leito.

Quem dera sentir, ainda, em minha pele
Todo o teu calor, que outrora colhi
Descansar no teu braço a impresença da angústia que sofri
Esperando, que somente, a morte da vida a sele.

E esta angústia, que agora calada
Maldita lembrança angustiada!
Não a de outrora; a que dela sinto falta.

Sem dar-me que tal angústia é o vazio.
Lembrar-me; na angústia outrora não senti frio.
Ardi; inexcedível amor, que agora, em meu peito não salta!

Nathaly Guatura.

Quarta-feira

"Carta a ti"

É com grande fraqueza que esta lhe escrevo. Para dizer-lhe, tão somente, que ainda sou a mesma.

Ainda sou a mesma que por tua presença espera.

A mesma que lhe dizia ser o moço dos sonhos e a mesma que lhe jurava casamento.

A mesma louca por ti, que não mediria esforços para lhe dar todo e qualquer, libertino ou recato, carinho.

E lhe peço, meu amante e meu namorado, que ainda que pedante e chata, me ofereça teu vicioso encanto. Até porque, as rosas tem espinhos, e no entanto; colhem-se.

Ainda sou a mesma que lhe disse ser difícil o seguir da vida sem ti, e a mesma que depositou crenças no quando disseste que só teria, eu, de viver sem ti, se de ti a morte interrompesse.

A mesma que espera, fielmente, sentir perto o calor de tua voz e a meiguice de teus braços.

A mesma que por ti pararia o mundo, e o faria girar novamente, se te incomodasse a calmaria.

A mesma, que ainda que, ausente da inteligencia e da beleza, pode oferecer a ti todo o amor e calor que nenhuma beleza inteligente lhe traria.

A mesma que fez parte de si mesma; o teu sorriso. E quando se deu, percebeu que na verdade de seu sorriso parte fazia, ela.

A mesma nua e crua, sem pudor, que conheceste, meu amor. A mesma.

Nathaly Guatura.

Terça-feira

"Fins"

Resume-se tudo ao final.
E eu sei que os meios nunca justificarão os fins.
Mas, esse fim, justificou todos os meios.
O fim, onde perdi o chão.
Mas, o incrível aconteceu; eu sabia voar.
Voei dias, naqueles minutos.
E naqueles minutos, voei dias.
Dias voei, em minutos; naqueles.
Anos amei, fui amada, às vezes.
Em minutos talvez.
Ou, em segundos...
Pouco sei.
Talvez nunca.
Mas, sei, que naqueles minutos.
Voei meses, e anos, e séculos.
E parei no tempo em que voava.
E estarei para sempre lá, parada.
Intacta, quieta e viva; esta lembrança.
Ah, esta lembrança, tão doída.
E tão amada.
Talvez, para ti, nunca tenha sido nada.
Mas, voei.
E continuo voando...
Para longe de onde comecei a voar.
Para longe de ti.
Para longe do mar.
Pois tu és água, em abundância.
Mas, água que não pode ser bebida.
E se bebê-la, para sempre terei sede.
Sede de ti!
O que não tenho.
E canso-me de ter!


Nathaly Guatura

Sábado

"Confuso"

Não sei se te amo.
Ou se simplesmente te quero.
Não sei se te quero.
Ou se simplesmente te amo.
Não sei se te amo te querendo.
Ou se te quero te amando.
Ou se te iludo em dizer que te quero e te amo.
Ou se te amo e me iludo dizendo que te quero.
E não sei se te quero e finjo que te amo.
Não sei se te finjo que te amo e te quero.
Para que te iludas e pense que te finjo querer para que me ames.
É claro que te amo, e não te quero. E finjo que te quero e não te amo.
É claro que te iludo e não te amo, e não te quero fingir que me continues querendo.
Quero o infinito, e amo o infinito.
Se fores o infinito, te quero e te amo.
Se não fores o infinito, posso te querer ou estar te amando.
Não te quero e não és o infinito. Logo, não te amo e não finjo que te engano.
Te iludo e és o infinito. Te amo, te amo e te amo.
Te quero como quero o engano. E te engano quando digo que te quero.
Ou se te amo, finjo e te iludo com tanto engano e infinito.
Confuso, mas um grande verso bonito.


Nathaly Guatura

Quinta-feira

"Sentimento Absoluto"

Deveriam sentir o que sinto.
Meu amor, minha fúria.
Minha intensidade, meu desejo de luxúria.
E, eu sinto, que deveriam todos sentir o que sinto.
E sentir o esdrúxulo e sólido.

Deveriam ver o que vejo, deveriam todos.
Mas, que intenso seria!
A intensidade nunca acabaria!
Não digo da boca pra fora, falo sério!
E, que bonito seria.

Bem digo, há mais arte na tristeza, que encanto na alegria.
E, sinto, sinto muito por não poderes sentir o que sinto.
Mas, não. Não deveria senti-lo.
Desenhar-me-ia tristonho.
Pois sua consternação é minha mera intensidade!

Meus artifícios, minhas socapas, minhas substituições.
Se fossem não eles, que seria eu?
Talvez cristão, talvez ateu?
Talvez nada fosse, como nada sou.
Exceto o que sinto, pois tudo sinto.

O que sinto é tudo.
Se sentisse, compreenderia, amigo meu.
E tomaria meu sentimento como teu.
Tu seria diferente do que é.
Pois não seria igual, nem semelhante.
Seria a intensidade, a todo instante.

E teus momentos de alegria, seriam momentos.
E teus intensos de momentos, seriam intensos.
Seria uma questão de eterna consternação.
Nada ruim, somente a prazerosa conformação.

Procure não compreender.
Não sentes o que deves!
Deveria sentir o que sinto.
E, não brinco! Choro, grito e confirmo todas as confirmações!
Sinta o que sinto e nunca mais entristecerás.
Pois saberia que a intensidade lhe ajudaria.

Que triste é saber que não sentes o que sinto!
Bem sei que deveriam.
Só assim saberiam que não quero aquilo que desejo.
E compreenderiam, que nem tudo o que olho, vejo.
E aprenderia a chorar como estou chorando,
por socapar minha tristeza, e esconder que estou implorando.
Implorando por mais arte, mais consternação!

Mais decadencia em minhas estrelas.

Deveriam sentir o que sinto...
Deveriam viver!
Ver o que vejo, correr riscos.
Deveriam ser!

É sempre uma questão de tempo.
Até a eloquencia, a fragilidade e a acanhação,
ficarem intensas demais para o homem que é são.

E falta-lhe a não lucidez.
O lúcido se auto ludibria.
E, não preciso eu dizer, pois já sabes.
Sabes que deves sentir o que sinto.

Mas, esqueça-te do que disse.
Não disse eu nada.
Bem digo que só sentiu, ou sonhou!
Adeus, dê-me agora licença, o escrito acabou.

Nathaly Guatura

Domingo

"Amei"

Amei-te como quem não ama.
Amei-te como negros pombos amam o céu.
Amei-te como quem nada quer, como quem nada pretende.
Como alguém mau e frio, que nunca se surpreende.
Com amor de inexcedível beleza e ignota razão.
Não mútuo, nem inerte.
Sempre em movimento; átrios, ventrículos e emoção.
Amei-te como quem desvaloriza seus valores.
E como quem futiliza seus ideais.
Minhas ações à minha mente são ileais.
Vazio como o oceano vão e impreciso.
Nunca recíproco. Sempre me impede o riso.
Amei-te quando me falavas entrelinhas.
Ou quando era explícito e falso.
Mesmo sem rimas, te amei.
Como quem não chora por vergonha.
Como quem não ri por orgulho.
Como quem se vale de apenas saber o que sabe.
E como quem sabe e não da importância à razão.
Como quem se orgulha de sofrer e valoriza tudo o que é vão.
Amei-te como quem é adultero à própria moral
E como quem ignora toda a ética.
Amei-te como um adulto feliz e anormal, e como uma criança cética.
Como quem não quer o que deseja;
E como quem deseja o que não pode querer.
Como quem não quer o que a vida oferece
E só implora pelo que ama a vida poder oferecer.
Amei-te tanto e é certeza que já não o amo mais.
Amei-te tanto, e meu receio é não poder esquecer-te jamais.
Amei-te e mais nada sei.Em verdade, por tudo nessa vida! Só sei que te amei.

Nathaly Guatura

Quinta-feira

"Declaração de minha Deficiência"

Amo-te;
Amo-te loucamente;
Porém, espero-te paciente.
Dono de meus pensamentos.
Invasor de todos os meus sonhos.
Mata-me, para que em ti nunca mais pense.
Ou será tu também dono de minha morte?
Culpo-me por amar-te tanto.
Não escrevo sobre amor, para não desperdiça-lo,
Mas meu amor por ti é tão grande, que mesmo se o desperdiçasse em mil folhas,
Sobraria para dez mil.
As noites vêm, os dias vão.
Tu ainda habita meu coração.
As noites vão, os dias vêm.
Continuo amando-te como mais ninguém.
Escrevo-te chorando e implorando que arranquem meu coração.
Não sabes o quanto dói amar-te em vão.
Meus sentimentos expostos estão.
Estou tentando dizer o quanto tu significa.
Versos e rimas não adiantam em nada.
Mas, esta carga que em mim carrego é tão pesada...
Odeio-te.
Odeio-te por amar-te tanto.
Mas, tu não me ama.
Digo-te isto pelas vezes em que seus atos fizeram-me chorar;
E pela apatia com a qual trataste minhas lágrimas.
Gostaria de dizer que odeio-te com sinceridade, mas em verdade digo-te que;
Amo-te.
Amo-te todas as manhãs quando experimento o doce sabor do céu acinzentado.
E, lembro-me que nunca experimentei o sabor da tua boca de tom avermelhado.
Amo-te.
Amo-te todas as noites quando percebo o brilho das pequenas estrelas.
E, pergunto-me se elas são tão macias quanto a sua pele.
Mais uma vez peço-te;
Por todas as metáforas, por todas as comparações, por todas as rosas inexistentes que furam o asfalto, por todas as músicas e seus refrões;
Mata-me.
E, se o amor que por ti sinto ressuscitar meu espírito...
Mata-me de novo e novamente.
Prive-me do sofrimento de amar-te tanto quanto o ser humano ama o ar, tanto quanto as sereias amam o mar.
Talvez, o mais profundo que alguém possa amar.
Amo-te.
Amo-te além do horizonte.
Amo-te com o amor mais puro e enlouquecedor.
Amarei-te até inoperante, amarei-te aonde eu for.
Amo-te, meu amor.
Nathaly Guatura

Quarta-feira

"Pena"


Este é o meu melhor.

Se te não agrada o melhor de mim;

Estás convidado a sair de minha vida e deixar-me só com minha solidão quieta.

Pois quem ama sofre de penas inventadas...

Não estou cansada o suficiente, que não possa eu inventar outra pena para sofrer.



Nathaly Guatura.

Terça-feira

*Trema

Esta imagem foi enviada por um amigo.
Trata-se da reforma, recentemente anunciada, pela qual passará a nossa querida língua portuguesa.
Em minha sincera opinião, o trema era de grande importância para a nossa língua, e sua retirada implicará uma grande perda para o português.

Nathaly Guatura

Domingo

"Pobre"

Orgulho-me muito da vida, da vida que levar venho escolhendo.
(Digo isto como se levasse eu alguma coisa.
Na verdade, meus ímpetos sempre são de não levar coisa alguma)
Acordei hoje sentindo-me mal.
Mas, não mal, de quem se sente mal, mal de quem sente-se muito mal.
Não que faça alguma diferença a alguém, a mim me está fazendo toda.
Não mais achei graças nas coisas, fatiguei-me delas.
Delas todas.
Onde há graça no que fazemos?
Que há de cultura nessa pobreza que a cultura é?
Senti-me mal e não queria escrever.
Fatiguei-me da escrita.
Não há graça nela também.
E que há de tão mau na tristeza?
Que de tão bom sentes tu na felicidade?
Que de tão ignóbil há nas pessoas?
Revoltou-me a príncipio toda a humanidade.
Mais tarde optei pelo abandono à hipocrisia.
Por que, infernos, as pessoas escrevem?
Por que, montes, estes seres falam?
O ser humano irritou-me.
Irritei-me a mim mesma.
Tive ganas de morder as coisas.
Empobrecer a bondade.
Revoltei-me contra injustiças.
Questionei tudo (inclusive a existência deste poema pobre).
Para que tanta miséria de espírito?
Lembrei-me de quando brigavam entre si, as pessoas.
A briga constante pela mediocridade.
Senti-me superior.
Mas, sou igual a todos.
Sempre que posso, quero ser mediocre e miserável.
Pois é disso que gosto.
Senti-me mal por ser igual, por escrever a pobreza;
E detalha-la com tamanha engenhosidade.
Quando bastava-me acordar e me olhar a mim mesmo no espelho e dizer uma palavra grande.
Senti-me bem por ser igual e pobre.
Senti-me igualmente pobre por ser igual.
A delicia está na igualdade.
Distinções exigem maiores esforços.
E que delicia é sentir-me cômodo.
Ser pobre e escrever pobre.
E ter pobrezas, igualmente, pobres.
E um pobre a escrever estas iguais pobrezas.
Lá eu estava.
Sempre pobre, igualmente, a escrever a mesma coisa.
Por ser pobre igual a todos.
Bom, é que sou assim.
Do contrário não escreveria eu, mais pobre, para que pobre fosse também aquele que lesse.

Nathaly Guatura

O Vinho Dos Tempos

Seu fantasma atormenta a minha alma;
Corrompe minha carne;
Queima meu coração;
Afoga-me em um mar de escuridão;
Cega-me com vendas transparentes;
Suborna-me com prazer.
Meu anjo e meu fantasma...
Faz-me esquecer a dor.
Ninguém sabe o quão isso é tentador.
Faz-me ser sua com apenas um olhar.
Mas, não poderia sua consciência pesar.
E, eu não hei de recusar esta oferta para minha alma amar.
Pecador, a quem vou me render.
Darei adeus ao fel e provarei o mel de seus doces e ardentes lábios.
Entregando-me à luxúria de apenas viver.Não receio que todos saibam do egoísmo de meu ser.

Nathaly Guatura

"A Fortaleza dos Fracos"

Sou sincero. E com sinceridade, e com papel, e com caneta também,
É que confesso que tenho inveja, porque não sou santo, sou forte.
Tenho inveja de fracos e doentes, pois se fosse fraco ou doente receberia o remédio.
Porque sobre eles cai piedade e compaixão, e por horas também amor.
Pobre de mim, que não posso ser fraco nem doente.
Aqui ressalto, que só é fraco e doente quem realmente pode ser fraco e doente.
Sou forte, porque só posso ser forte. E a mim só me resta minha enorme fortaleza.
Porque sou forte.
Porque quem não pode ser fraco, ou vira forte, ou se deixa falecer.
Pois um fraco e doente que não recebe tais remédios que citei, morre, ou vira forte.
Logo, não existem fortes que possam ser fracos e doentes.
Não digo nada anormal, bem visto que louco não sou, nem o posso ser, porque sou forte.
Digo que fracos e doentes são fracos e doentes.
E, que fortes são fortes.
E, digo mais. Digo que fracos e doentes não são senão felizes.
E, que fortes não são senão mais fracos e doentes (em segredo) e infelizes.
Na verdade, a maioria das maiores e menores coisas não são senão o que aparentam ser.
E a mim me parece que é realmente isso o que exatamente é.
Antes fosse eu fraco e doente, para que a mim e à minha alma me chegassem meus remédios.
Mas, como sou forte, contento-me com minha fortaleza, e só a ela.
Pois, além disso, nada tenho, pois, além disso, nada sou.
Fraco e doente não posso ser.
Então sou forte, mas, sou forte e nada mais.
Pois, os fracos e doentes precisam de nós (os fortes). Precisam de nós de braços, pernas e almas.
Porque se nós não existíssemos, não existiriam fracos e doentes.
Fracos e doentes seriam apenas e somente humanos.
E, não diriam que são fracos e doentes, diriam que são simplesmente humanos.
Pois todos seriam iguais, e sem distinção, e o pior defeito humano é o de todos serem fracos e doentes.
Mas, se não existissem os fortes, nada do que digo me faria sentido à minha consciência.
E tudo seria festa, e tudo seria remédio. Pois fracos e doentes não saberiam que são fracos e doentes, e nem que a fortaleza que desconhecem é triste, dura, não oca, porém pesada, inflexível, só não a digo fria, pois não sei se essa senhora reside em clima tropical.
Oh, divindade existente! Permite-me ser fraco e doente!
Antes alegria não sentisse, porque se a não sentisse também não sentiria a tristeza.
Antes de tudo, que eu nada sentisse, nem distinguisse o sentir do olhar.
Antes de tudo, que eu fosse fraco e doente.
E, ao menos uma vez, pudesse à vida ceder.
Pois já fui mui fraco e doente, mas não o podia ser, tentei me deixar falecer.
Mas, logo desisti, visto que ao meu redor o cemitério estava super lotado.
Fracos e doentes não sugam senão parte da fortaleza dos fortes, fracos e doentes,
Mas, nunca a fortaleza, nem a fraqueza, nem a doença acabam.
Pois de mim, não tiram senão remédios, pois não os tenho. Tenho tudo, mas, nada tenho.
Pois sou forte, e os fortes não têm nada a não ser sua fortaleza.
E sinto que às vezes minha loucura me desprende a mim de minha consciência, e em nada posso pensar. Senão nos malditos fortes que são fracos e doentes.


Nathaly Guatura