Vida, só em presente.
Vida. Em mim? Ausente.
Sei que o "uma hora" pode existir.
E só por poder já me ameniza.
Me ameniza dor maior que esta
Esta que já me afronta e me dói
Me dói o corpo e a cabeça.
Que a minha vida é uma espera constante
Espero-lhe hoje. Esperei-lhe ontem.
Esperar-lhe-ei amanhã.
E me incomodo da espera.
Mas, não o suficiente que me possa parar.
Vou deitar, que amanhã eu volto.
Volto para onde sempre estive
Onde pretendo ficar.
Permanecer é loucura.
Loucura mesmo é ir.
E se sou louca cá e lá
Quando é que sou sã?
Vou, não posso ir.
Fico, não posso ficar.
Vida mesmo, só em presente.
Passado é história e futuro é conversa.
Vida mesmo, só em presente.
Ausento o meu corpo do presente e planejo a conversa.
Vida não há nisso.
Sei que me comove a valer toda essa conversa presente.
Dou três passos à frente e vejo o mundo grande.
Mas, a juventude me puxa e daí não vejo mais nada.
Disse Byron: "Vai-se antes de que a própria juventude possa ir."
E como ir?
Logo a juventude irá, mas não eu.
Loucura mesmo é ir.
Permanecer é loucura.
Fico, é claro que fico.
Fico hoje e fico amanhã.
Fico na conversa.
Fico na história.
Fico antes, depois e sempre.
Porque loucura mesmo é ir.
Porque loucura mesmo é rir.
Chorar não é loucura.
Loucura é só conversa que era na história.
Loucura é esse presente, que não é presente coisa alguma.
Loucura é esperar por uma hora.
Vou lá.
Lá venho eu com lá novamente.
Já discuti isso com o eu-lírico.
Lá não é conversa.
Lá tem que parar de ser dito.
Lá tem que ser aqui, já que estou lá.
Vou fazer daqui um lá.
Já que só há história no presente
E que a conversa começa agora.
Futuro eu.
Futuro você.
Futuramos nós dois.
Em toda essa insorte de vida pérfida
Que me dá menos que promete.
E mais que posso carregar.
Mais a mim que a todos.
Porque sou eu e já não sou outro.
Sim, porque sou eu nesse presente.
Sou eu também nessa conversa.
E sou eu, e apenas eu nessa história.
E tanto eu é ênfase de precisão.
Precisão de mais eu outro.
Falta de doce, falta de salgado.
Falta de tudo.
Tão sem paixão, tão sem vontade.
Tão sem presente.
Sem perspectiva de conversa.
E pouco entusiasmo na história.
O incômodo causado pelo amor público
É o indício de pena.
Pena de não fazer parte dessa publicidade.
Esperar-lhe-ei mais um pouco.
Que cada pouco me rende muito.
A espera é válida, comovente e útil.
A espera me dá tempo para planos.
Muitos planos que me viram filmes
Que se fossem sondados seriam pouco assistidos.
E como sempre
Preciso contar-lhes
É que sou muito trágica.
E a minha tragédia dança, pula e corre nos átrios e ventrículos.
Minha tragédia é história.
Ela é um presente do presente.
E é conversa.
Conversa fiada.
Fiada meticulosa e ardilosamente.
Vida, só em presente.
Vida. Em mim?
Em mim há muita vida presente.
Na história não havia.
E na conversa eu não sei.
E lá vamos que aqui não é brincadeira.
Nada mudou de lá para cá.
É porque aqui não é lá...
E nunca há de ser.
Porque não quero que seja.
E sou eu quem conta toda essa história
Dos presentes que já foram conversas.
Já que toda história já foi conversa e presente.
E que todo esse presente será história.
E que a minha conversa também será história.
Meus olhos doem que só vejo coisas doloridas.
Vida, só em presente.
Vida. Em mim?
Ausente aqui que não é lá.
Vou...
Vou continuar por cá.
Tão sem gosto e desgostosa.
Onde no sono encontro mais satisfação.
Pois sei que no sono...
Os sonhos podem me levar para lá.
Lá é vida. Lá é presente.
Lá sou eu.
Volta a mim de lá, que me preciso um pouco.
Deitar-me-ei que me preciso.
É de mim que preciso.
Isso tudo é conversa.
Nos sonhos não há isso.
Por isso é que vou dormir.
Nathaly Guatura